“…- A sua enteada, Branca de Neve, é agora a mais bela!
Invejosa e ciumenta, a rainha chamou um de seus guardas e lhe ordenou que levasse a enteada para a mata e lá a matasse. E que trouxesse o coração de Branca de Neve, como prova de que a missão fora cumprida”.
Este é um famoso trecho do conto de fadas infantil Branca de Neve e os sete anões. Por ele é fácil observar a “lenda” da madrasta má. Durante muito tempo a palavra madrasta ligava à idéia de pessoa invejosa, que maltratava, mas será que ainda hoje é assim?
A palavra “madrasta” vem do latim vulgar matrasta. Tem a ver com “mãe” (mater), mas no sentido de “mulher do pai”, mãe que não é mãe, mulher que se tornou mãe “postiça” na ausência da mãe verdadeira.
Antigamente a figura da madrasta só existia quando a mãe biológica morria e então o pai se casava com outra mulher. Hoje isso mudou, como explica o psicólogo Adriano Duarte Caires: “As famílias nucleares (pai, mãe e filhos) não são mais os modelos padrões em nossa sociedade. Desde a legalização do divórcio, os novos casamentos têm proporcionado o fenômeno das famílias estendidas (os meus os seus e os nossos), onde os novos parceiros terão que lidar com os filhos do cônjuge”.
Esse novo padrão de família tem criado muitos conflitos. “A mulher está disposta a criar, cuidar, amar, o enteado? O marido está disposto a apoiar a esposa quando for necessário que a mesma exerça autoridade sobre o seu filho, fazendo um papel de mãe? Foi explicado ao enteado qual é a importância e o valor daquela mulher na vida do pai, e que a mesma exercerá o papel de mãe?”, pergunta o psicólogo.
“Essas são questões que deverão ser discutidas anteriormente, pois o combinado não sai caro”, finaliza Caires.
Apesar de ainda haver relações de conflitos entre os dois lados, hoje já existem situações de amor entre as duas partes. “Tenho um bom relacionamento com Gabriel meu enteado, com ele não tive conflito nenhum. O problema foi com a mãe dele, pois ela sempre o deixava conosco nos finais de semana. Por outro lado tinha medo dele se sentir rejeitado com por mim e pelo pai caso eu reclamasse. Quero e faço de tudo para que ele se sinta a vontade”, diz a madrasta LT que completou: “tive medo de, por meu marido já ser pai, não ligasse muito para o filho que tivemos, mas ele está sendo um excelente pai, me surpreendeu muito”. Nas relações de conflitos entre as duas partes, os pais geralmente se abstêm por não saberem o que fazer. O marido dela, CT, diz que às vezes se sente em fogo cruzado. “Um tentando mostrar que o outro está errado e ambos esperando uma posição da minha parte, isso é terrível”.
Ele deixa a dica: “A estratégia para um bom relacionamento é criar situações em que ambos possam participar. Desde uma simples arrumação em casa, até a elaboração de viagens ou passeios”.
Quando os envolvidos se aceitam e convivem numa boa, tudo fica mais simples, o difícil é quando eles não se gostam. A convivência fica praticamente impossível. Enteados mais novos, até os 10 anos de idade, tornam a relação mais fácil. Criança geralmente respeita mais os adultos. Na adolescência a coisa se complica, pois eles se tornam rebeldes e contestadores. É nesta fase que os grandes conflitos aparecem. Não são raros hoje em dia os casos de madrastas e enteados com idades próximas um do outro.
Uma novela de TV atualmente está abordando a relação entre madrasta e enteada jovens. As personagens Helena (madrasta) e Luciana (enteada) não convivem bem e não é por falta de esforço da parte de Helena. Ela faz de tudo para agradar a enteada, que só a rejeita. Helena levou Luciana para participar de um desfile internacional, mas o que era para ser uma aproximação entre as duas acabou em catástrofe. Brigas freqüentes durante a viagem fizeram com que a madrasta obrigasse a enteada a viajar de ônibus. O que ela não imaginava é que Luciana sofreria um acidente que a deixaria tetraplégica. Se já não bastasse a relação ruim entre as duas, a madrasta agora carrega uma enorme culpa pelo acidente.
Os enteados costumam reagir negativamente quando a madrasta engravida. O ciúme faz com que eles pensem que “novos membros” na família vão afastar o pai. Damaris Bubans viveu uma experiência semelhante: “Meus pais se separaram quando eu tinha 8 anos de idade e logo depois meu pai teve novo casamento do qual nasceram outros dois filhos. Nunca tive um bom relacionamento com Fernanda, a minha madrasta. Quando a conheci eu tinha 10 anos e era muito esquisito para mim ver meu pai com outra mulher. O problema piorou quando ela ficou grávida. O ciúme e a implicância aumentaram. Como papai me levava pouco na casa deles, esse conflito com minha madrasta Fernanda, durou bastante tempo. Tenho que reconhecer, que com o esforço que ela fez, a raiva e implicância foram passando, pois percebi que nem minha madrasta nem meus novos irmãos roubavam meu pai de mim”, conta.
Para alguns estudiosos educar um filho atualmente já é difícil, ainda mais quando não existe um laço biológico entre eles. É o caso da madrasta ACES, que encontra dificuldades com a educação de seus enteados. “Tem dias que parece uma turbulência, eles são muito bagunceiros, desaforados e até mesmo mentirosos. Fazem de tudo para chamar a atenção do pai”, diz. Agir nesta situação não é fácil. ACES conta que para não desgastar ainda mais seu relacionamento com os filhos do marido, ela evita “puxar a orelha” dos meninos com muita freqüência, embora ache que deveria.
Há também quem viva a relação de maneira mais amistosa e cordial reconhecendo que a nova mulher do seu ex-marido pode ser importante para seus filhos: “Não sinto ciúmes dos meus filhos com a madrasta. Eles passam mais tempo comigo do que com ela e além do mais, quem faz bem aos meus filhos faz bem para mim também”, afirma Denise Honda, para quem o mais importante é o bem estar dos filhos e da relação familiar. É preciso para isso a confiança mútua entre as partes envolvidas. “Por ter confiança no pai deles, eu confio a ela também a guarda dos meus filhos durante a estadia deles na casa da madrasta”, finaliza Denise.
Os números da pesquisa divulgada em novembro, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que os brasileiros se casam mais, mas os divórcios também aumentam. Em 2008 foi registrado o maior número de divórcios (188 mil) desde 1984. No geral as pessoas deveriam procurar se entender melhor, pois a julgar pela pesquisa, as chances de viver os papéis de madrasta e enteado aumentam a cada ano.
No final da história, Branca de Neve casa-se com o príncipe, vive feliz para sempre e sua madrasta morre com o próprio veneno. Na vida real, pelos relatos acima, ao menos as pessoas estão procurando se entender.
Escrito por João Carlos 




